terça-feira, 27 de junho de 2023

Soneto Fora do Controle


Hoje o coração amanheceu apertado.

Ele aperta quando te vê

Ele aperta quando te vê partir

Ele aperta por não saber se queres ficar ou sair

 

Hoje meu coração ficou cheio quando te viu passar

Apertou e acelerou de encantamento

E acelerou ainda mais

Quando viu que teu caminho era contrário ao meu

 

Hoje o coração amanheceu batendo diferente

Mais rápido e mais forte

Vendaval que bagunça até o que está no lugar

 

Disseram que era soneto

Disseram que uma só pessoa pode encher o peito

Disseram que eu não podia mudar essas estruturas

 

Mas se nem poesia precisa de rima

Por que só tu podes encher de luz o meu dia?


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Um Roteiro Corriqueiro

 

Isabela nunca quis casar. Não que ela não acreditasse no amor, mas não conseguia acreditar nos casais felizes para sempre. Parecia-lhe que depois de alguns anos, o companheirismo do casal tomava conta de tudo e acabava com a chance de sentir o friozinho na barriga.

Mas todo mundo sabe que aquela frase clichê faz todo sentido: a gente não escolhe de quem vai gostar. E então ela encontrou o amor da vida dela. Felipe a fez deixar de pensar naquilo tudo, a pediu em casamento e fazia disparar o frio na barriga sempre que inventava uma surpresa nova, mas depois de quatro anos entre namoro e noivado, ela voltou a confiar nas suas teorias e teve certeza, mais uma vez, de que não poderia dividir a sua vida com uma única pessoa. Assim ela era feliz. E foi feliz e sentiu aquela sensação que ela tanto amava a cada nova paixão. Depois do Felipe, o único romance que durou mais de 2 anos foi com a Maira, os outros todos passageiros.

Aos 39 anos ela teve a sua primeira decepção amorosa, mas não sabia dizer de quem era a culpa. Isabela se apaixonou por um homem casado, que vivia uma vida feliz com a esposa e os dois filhos. Embora ela soubesse que eles já estavam naquela fase do relacionamento que ela desprezava, Théo não sabia disso e ela não se achava no direito de alertá-lo. Lembrou que além do Théo, mais alguns homens casados a tinham feito sentir o frio na barriga e aí que veio a decepção: ela se deu conta de que, a maioria das pessoas, uma hora decidiam compartilhar sua vida com alguém, fosse por amor ou por cansar daquela procura pela pessoa perfeita. Certo ou não, Théo era uma dessas pessoas, mas parecia que não era por cansaço, pois apesar das investidas dela, ele nunca demonstrou reciprocidade. Isabela entendeu então, que teria que se entregar a um desses amores eternos.

Assim ela aprendeu que existia mais um motivo pra decidir ficar com alguém. Procurou Felipe. Casou e vivia uma vida quase perfeita, mas o frio na barriga quem proporcionava ainda era o Théo, mesmo que em todas as conversas falasse sobre a esposa, mesmo que ele se sentisse orgulhoso daquela amizade bonita que eles criaram. Quando entendeu o que ele a fazia sentir e quando entendeu também que ele não estava disposto a mudar o roteiro da vida dele, ela aceitou que teria que aprender a conviver com aquela vontade de estar perto sem poder estar. Assim ela foi feliz no seu para sempre: dividindo a sua vida com alguém especial e deixando na imaginação tudo o que poderia acontecer se o Théo sentisse o mesmo por ela. Ou se ele ao menos tivesse coragem de contar que sentia.

domingo, 21 de junho de 2015

Enquanto eu Tomava o meu Chimarrão

Eu decidi voltar. No 492º dia fora de casa, enquanto eu tomava meu chimarrão, decidi começar a planejar minha volta. Começar a pesquisar preços de passagens, pensar em qual mês seria mais tranquilo para chegar em casa, pensar onde será a minha casa, pensar se vou primeiro para Charqueadas ou se primeiro visito meus sogros em São Paulo.  E por ai foi meu pensamento durante toda a tarde de hoje. Um turbilhão de coisas na cabeça por causa de um chimarrão.
Quando eu vim morar em Dublin, as primeiras coisas que foram para a mala foram a minha cuia, que comprei especialmente pra trazer, minha bomba e cinco quilos de erva mate. A cuia foi comprada no mesmo lugar em que meu pai sempre compra tudo que precisa para o chimarrão, no Mercado Público de Porto Alegre. A bomba foi presente de primeira qualidade que ganhei da minha prima e a erva não pude comprar a mesma que sempre usamos em casa porque não vem embalada a vácuo, então comprei de uma marca que eu já conhecia e sabia que era boa.
Tive muito cuidado nessa etapa da preparação da minha viagem porque, como todo bom gaúcho, não vivo sem chimarrão e como eu sabia que passaria, pelo menos, um ano fora, escolhi tudo a dedo. Mas, pasmem! Aqueles cinco quilos de erva mate que eu trouxe ainda não acabaram. Até alguns dias atrás o que eu entendia disso era que sim, eu posso viver sem chimarrão, já que eu consigo saciar o meu “ex-vicio” somente uma vez na semana ou até em um intervalo maior. Hoje, enquanto eu tomava o meu chimarrão, eu descobri que eu estava enganada: ainda tenho erva no meu estoque porque aqui ele não tem o mesmo gosto.
Imagino que alguém me perguntaria agora por que não tem o mesmo gosto se eu trouxe cuia, bomba e erva mate do Rio Grande do Sul. Será a água? Não, aqui a água tem o mesmo gosto de nada que ela tem no Brasil. O que faz o chimarrão não ter o mesmo gosto é a falta da roda que se cria em volta dele naquele momento tão especial do dia. Hoje, enquanto eu tomava meu chimarrão, pude enxergar a fumacinha saindo da garrafa térmica no momento em que meu pai servia o próximo. Enquanto eu tomava meu chimarrão, pude me sentir como se estivesse sentada no colo da minha mãe, nos fundos de casa, enquanto era a vez dos meus irmãos na roda. Pude sentir o cheiro da comida sendo preparada no fogão a lenha e enxergar os meus gatos se aquecendo debaixo dele.

Hoje, pela primeira vez em 492 dias, eu senti o verdadeiro gosto do chimarrão e percebi que ele não é apenas uma bebida amarga típica do Sul do Brasil. Percebi que aquele gosto faz parte das nossas vidas, nos aproximando das nossas famílias e amigos e que ele tem o poder de cultivar bons sentimentos. Hoje, enquanto eu tomava o meu chimarrão, eu descobri que nada tem valor maior do que poder compartilhar esse sabor amargo com as pessoas que nos fazem ter os sentimentos mais doces da vida.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Silêncio no Jardim



Me dá um medo incrível toda vez que percebo ele me olhando. Eu não sei o que passa naquela mente enquanto os olhos me seguem e mudam até o brilho dependendo do que eu faço. E se meu olhar cruza, sem querer, o dele, ele sorri.
Há pouco mais de cinco anos Moisés está na clínica. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, mas quando sua mãe o trouxe disse apenas que ele havia perdido a noiva em um acidente aéreo em 2007. Teve a companhia da família nos primeiros meses, pelo menos, uma vez por semana e conforme o tempo ia passando, crescia o intervalo entre as visitas. No fim do ano passado tentei contato com os pais, mas parece que não moram mais em Porto Alegre.
Trabalho na Santa Cecília desde que me formei em terapia ocupacional, fora o estágio obrigatório da faculdade que realizei aqui também. Foi nesse período que pude ter certeza da área que eu queria seguir e assim que peguei o certificado de conclusão do meu curso, tirei uma cópia pra anexar aos meus documentos na clínica. Fui chamada em dezessete dias. Jamais senti medo de paciente algum. Jamais pedi pra que algum colega me substituísse em tarefa nenhuma. Eu adoro esse lugar e adoro o meu trabalho. Mas o Moisés me transmite algo estranho, nem eu mesma tenho certeza quando eu digo que é medo. Não é isso que sinto, acho que tenho medo de significar algo pra ele. Aquele homem de trinta e sete anos, não fala desde o dia do acidente. Pelo menos é o que consta na ficha.
Um dia ele falou. Falou uma única palavra, mas falou e ninguém acreditou quando contei. Ele segurou minha mão e disse Mariana, acredito que seja o nome da noiva, mas como não consigo encontrar a família, até hoje estou sem informação alguma sobre o Moisés. Desde esse dia ele me dá os tais sorrisos que mencionei e o meu profissionalismo me impede de sorrir de volta. Outra noite, sonhei que estava sentada ao lado dele no jardim da Santa Cecília e que ele me contava toda a sua história. Ele disse que morreu em um acidente há alguns anos e que não sabe por que eu consigo enxergá-lo, já que ninguém o vê ou o escuta. Disse que tentou falar com várias pessoas, mas ninguém o entendia. Falou para a mãe que seu amor, ou seja, sua vida acabou naquele dia, mas amor era uma palavra que ela não conhecia, o que cortou qualquer possibilidade de comunicação entre eles. Dali em diante, não disse mais nada até que encontrou a única pessoa que entendia o significado da morte pelo diagnóstico que ele mesmo deu.
De tanto ver filmes e novelas, pensei em muitas coisas quando acordei, como se, talvez, eu pudesse mesmo falar com alguém que não está aqui de fato. Assim que cheguei à clínica, fui olhar os arquivos. Sim, estava lá o nome dele e não constava a palavra óbito nos registros. E mais uma vez o meu profissionalismo que, às vezes, vai de encontro ao que eu sinto, me impediu de acreditar no sonho. E o Moisés continua lá, a me sorrir como que na esperança de que um dia eu realmente sente ao seu lado no jardim.  

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Carta


Para mim, acordar sem um abraço acompanhado de um sorriso e um bom dia, assim como dormir sem um beijo, só acontece quando não existe nada além de sexo. Acho que por isso eu não fazia, nós tínhamos aquela mania de colocar aspas quando escrevíamos alguma coisa sobre o “nosso relacionamento”.
Desde que meu pai morreu, minha mãe ficou muito reservada. Se ela não tivesse mudado tanto, tenho certeza de que aceitaria que eu apresentasse o Rômulo como meu namorado, até porque a Cleonice, mãe dele, era amiga de infância da minha. Tudo bem. Para nenhum de nós dois havia algo mais forte do que a falta que sentíamos do meu pai que, apesar de ser muito conservador, enchia a casa com música e risadas. Não fosse o câncer, ainda teríamos toda aquela alegria, mas ele também não deixaria que eu entrasse em casa com o Rômulo, por isso eu não culpo a minha mãe, o meu drama não seria diferente.
Nos conhecemos quando crianças, devido a amizade de nossas mães. Quando adolescentes, pudemos notar nos gestos um do outro que sentíamos a mesma coisa, mas só conseguimos, de fato, nos relacionar quando já estávamos com quase vinte anos. Claro que o meu desejo era contar para todo mundo o que estava acontecendo. O pior era ter que me esconder como se eu estivesse cometendo algum crime. Decidimos não levar aquela história tão a sério, já que não poderíamos mesmo ver aquilo como um namoro, por isso as aspas na palavra relacionamento.
Cada minuto que passamos juntos valeu por cada lágrima que eu derramei por não poder estar sempre ao lado dele. A nossa cumplicidade era imensa, dava sempre a impressão daqueles clichês de comédia romântica, mas mesmo com tudo isso, insistíamos em dizer que não tínhamos nada além da cama, assim, parecia que o sofrimento seria menor. Grande ilusão! Nós dois tínhamos a mesma vontade, os mesmos desejos e o mesmo sentimento. Mascaramos tudo porque nada dependia de nós.
            Não vou dedicar esta carta a ninguém, talvez minha mãe leia, talvez o Rômulo ou talvez só a polícia, não importa. Passei a vida inteira com uma dúvida me consumindo e foi isso que me impediu de ser feliz e, para que as pessoas que amo não tenham esse mesmo sentimento, está tudo esclarecido aqui. Já disse que não culpo a minha mãe e espero que ninguém o faça, ela apenas manteve, de certa forma, o meu pai presente entre nós. Culpem toda a sociedade. Minha mãe não ficaria feliz se eu resolvesse assumir este romance, mas a dor será muito maior por não me ter ao lado dela, esse será o seu castigo não merecido. Vocês que ficarão com os olhos arregalados ao saber disso tudo são os verdadeiros culpados. Saibam que uma vida está acabando assim porque todos vocês ficariam escandalizados ao saber que o filho do Major Rodrigo se apaixonou, um dia, pelo filho da Cleonice.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Passarinho Verde


Certo dia, o velhinho que trabalhava no rancho da minha avó me disse que, se pudesse escolher, ele seria um passarinho verde. João Milho de Pastos explicou:

- Quando alguém descobre um segredo, diz que foi um passarinho verde que contou. Quando está feliz por nada é porque viu um passarinho verde.

Adivinha quem me soprou ao ouvido que eu deveria contar-lhe esta historinha?

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Um Forte Abraço


Aquele abraço durou quase dois minutos e Amélia não perguntou nada, não falou nada, e não diminuiu a força em seus braços enquanto envolviam o namorado que chegou abalado em casa. Sempre que ele precisou, foi ali que buscou conforto e nunca saiu de um abraço sem estar com o coração mais tranquilo do que havia entrado nele.
Os dois conheceram-se na escola, Ensino Médio. Amélia não era bonita, mas tinha um jeito de lidar com as pessoas que fazia dela uma das alunas mais populares dali, embora nunca tenha buscado isso. Todas queriam ser suas amigas e ela nunca julgava ninguém sem antes conhecer. Conversou com Márcia por alguns dias e pode sentir a maldade com que ela falava dos outros. Afastou-se imediatamente. Quando ficava com um ex de uma amiga, era sempre perdoada, ninguém conseguia sequer ver maldade naquele ato. Os guris que não a conheciam, nem a notavam durante o encontro das escolas nos jogos municipais. As gurias não a olhavam de cara feia, pois sua aparência não era de causar inveja. Juliano era o melhor amigo de Amélia que era a melhor amiga de muitos colegas e amigos de amigos a quem era apresentada durante a adolescência. Era impossível não se apaixonar por ela e não se sentir a vontade para contar todas as confidências e esperar pelos conselhos. Ela não sabia fazer isso, mas ninguém se importava, um olhar e um abraço dispensavam qualquer palavra. Estudavam juntos desde o primeiro ano, mas só na metade do segundo é que ele teve coragem de contar seu maior segredo que ela, é claro, já sabia. Começaram, então, a namorar. Viam-se todos os dias na escola e passavam os fins de semana grudados. Gostavam tanto um do outro e gostavam tanto da companhia um do outro que a mãe dele e alguns colegas diziam que não ficariam juntos por muito tempo.
Erraram. Logo depois da formatura do Ensino Médio, Juliano recebeu a notícia da aprovação no vestibular de medicina. Amélia ainda demorou mais um ano para entrar na faculdade. Claro que todo mundo já pensou nisso. Sim, o nome dela era por causa da música. Janice dizia que sua filha não ia se importar em ter um sapato bonito e um corte de cabelo da moda. Seria inteligente e independente. Quando casasse, seu marido não precisaria ajudar a lavar os lençóis sujos. Também errou. Amélia não casou, mas foi morar com Juliano quando, no quarto semestre, a medicina começou a lhe tirar todo o tempo que tinha pra conciliar a limpeza do apartamento, o trabalho e os estudos. Ela trabalhava só pela manhã e o curso de pedagogia a distância não exigia tanta dedicação, então conseguia sempre deixar o apartamento em ordem. Fazia um escândalo toda vez que encontrava uma cueca no chão do banheiro, porque era mesmo uma mulher de verdade e embora muito compreensiva, exigia que ele a ajudasse.
Brigavam quase todos os dias por alguma coisa boba, mas nunca dormiram sem um beijo de boa noite e um sorriso que representava o já passou. Não diziam eu te amo todas as noites, mas não passavam um dia sem deixar um bilhete. Um hábito que adquiriram no início do namoro, quando mandavam bilhetinhos com palavras apaixonadas escondidos das professoras. Um sabia tudo o que acontecia na vida do outro, sinceridade era a única coisa que os dois exigiam. Quando a mãe de Amélia morreu, foi no abraço dele que conseguiu parar de chorar por alguns instantes. Desde que eram amigos, ela sempre disse que não conhecia outra coisa que a deixasse tão segura quanto estar ali, tão perto de Juliano.
            Foi naquele abraço que ganhou quando chegou em casa, por estar tão perto de Amélia, que ele conseguiu parar de chorar um pouco. E ali mesmo, disse à namorada que não queria filhos, pois não sabia cuidar de uma criança. Estudou seis anos durante a faculdade, além da residência. Um mês depois de acabá-la, fez sua primeira cirurgia. Logo em uma criança. Não foi ele quem deu a notícia para os pais. Não foram os pais que pensaram em largar tudo o que tinham construído até agora. Não foram os pais os primeiros a serem encaminhados à terapia. Juliano não quis entrar na sala da psicóloga do hospital onde trabalhava, foi direto para casa. Precisava da segurança daquele abraço. Amélia não sabia dar conselhos, mas aquele olhar e aquele abraço, mais uma vez, dispensaram qualquer palavra.