domingo, 21 de junho de 2015

ENQUANTO EU TOMAVA O MEU CHIMARRÃO

Eu decidi voltar. No 492º dia fora de casa, enquanto eu tomava meu chimarrão, decidi começar a planejar minha volta. Começar a pesquisar preços de passagens, pensar em qual mês seria mais tranquilo pra chegar em casa, pensar em onde será a minha casa, já que casei e, por isso, a casa dos meus pais não e mais uma opção, pensar se vou primeiro pra Charqueadas ou se primeiro visito meus sogros em São Paulo e por ai foi meu pensamento durante toda a tarde de hoje. Um turbilhão de coisas na cabeça por causa de um chimarrão.
Quando eu vim morar em Dublin, as primeiras coisas que foram pra mala foram a minha cuia, que comprei especialmente pra trazer, minha bomba e cinco quilos de erva mate. A cuia foi comprada no mesmo lugar em que meu pai sempre compra tudo que precisa pro chimarrão, no Mercado Público de Porto Alegre. A bomba foi presente de primeira qualidade que ganhei da minha prima e a erva não pude comprar a mesma que sempre usamos em casa porque não vem embalada a vácuo, então comprei de uma marca que eu já conhecia e sabia que era boa.
Tive muito cuidado nessa etapa da preparação da minha viagem porque, como todo bom gaúcho, não vivo sem chimarrão e como eu sabia que passaria, pelo menos, um ano fora, escolhi tudo a dedo. Mas, pasmem! Aqueles cinco quilos de erva mate que eu trouxe ainda não acabaram. Até alguns dias atrás o que eu entendia disso era que sim, eu posso viver sem chimarrão, já que eu consigo saciar o meu “ex-vicio” somente uma vez na semana ou até em um intervalo maior. Hoje, enquanto eu tomava o meu chimarrão, eu descobri que eu estava enganada: ainda tenho erva no meu estoque porque aqui ele não tem o mesmo gosto.
Imagino que alguém me perguntaria agora por que não tem o mesmo gosto se eu trouxe cuia, bomba e erva mate do Rio Grande do Sul. Será a água? Não, aqui a água tem o mesmo gosto de nada que ela tem no Brasil. O que faz o chimarrão não ter o mesmo gosto é a falta da roda que se cria em volta dele naquele momento tão especial do dia. Hoje, enquanto eu tomava meu chimarrão, pude enxergar a fumacinha saindo da garrafa térmica no momento em que meu pai servia o próximo. Enquanto eu tomava meu chimarrão, pude me sentir como se estivesse sentada no colo da minha mãe nos fundos de casa enquanto era a vez dos meus irmãos na roda. Pude sentir o cheiro da comida sendo preparada no fogão a lenha e enxergar os meus gatos se aquecendo debaixo dele.

Hoje, pela primeira vez em 492 dias, eu senti o verdadeiro gosto do chimarrão e percebi que ele não é apenas uma bebida amarga típica do Sul do Brasil. Percebi que aquele gosto faz parte das nossas vidas, nos aproximando das nossas famílias e amigos e que ele tem o poder de cultivar bons sentimentos. Hoje, enquanto eu tomava o meu chimarrão, eu descobri que nada tem valor maior do que poder compartilhar esse sabor amargo com as pessoas que nos fazem ter os sentimentos mais doces da vida.

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